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Thursday, March 27, 2008

Emprestar o corpo à dança


De manhã cedo os bailarinos chegam ao estúdio, ao espelho. Trazem só o corpo, que aprenderam a emprestar à dança.
Bailarinos que se esquecem de si, aprendendo a sobrevoar paisagens de pensamento cristalizadas no espaço.
Nos bailarinos não há desejo a não ser o de se elevar ao som de uma melodia, de vibrar com um ritmo.
Os seus movimentos criam cores dentro das paisagens monocromáticas. E despertam nos outros o desejo de outras vidas por si vividas.
Plié, pás de basque, rond de brás, atitude.
Aula de clássica pela madrugada. Composição e ritmo pela tarde. História da dança, história da música, histórias que passam por si, vivendo-as como entidades abstractas.
O movimento enche-se de luz, preenchendo os seus corpos gloriosos. O cenário torna-se supérfluo quando o corpo é a extensão de si próprio, apontando para o infinito.
Ao fim do dia os espelhos partem-se por dentro de si mesmos e os bailarinos recolherão aos seus corpos, à hora de abrirem a janela de fingirem que se amaram, pairando por sobre o orvalho dos seus sentidos.

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