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Sunday, November 26, 2006

Debaixo da Cidade


Corre, corre, corre. Imparável, na escuridão, o actor Manuel Wiborg, calções desportivos e tronco nu, corre como um atleta mas a corrida desenha círculos no espaço. Corre à volta de quê? À volta de nada? É muito escassa a iluminação (por Rui Alves), luz dum foco que lhe segue o movimento, a desvendar só parcialmente corpo e espaço. Assim decorrem os longos momentos iniciais do espectáculo Debaixo da Cidade, baseado em texto homónimo de Gonçalo M. Tavares, encenado por Manuel Wiborg e Cláudio da Silva, que se estreia hoje em Lisboa, na Sala de Ensaio do Centro Cultural de Belém (CCB), onde fica até dia 30 (21.00), seguindo depois em digressão e voltando à capital, noutra sala.Aquela corrida não corresponde a uma sequência muda. O intérprete duplica a prova de esforço: desde o primeiro momento/movimento, verbaliza o monólogo que é Debaixo da Cidade (do livro A Colher de Samuel Beckett, Campo das Letras, 2002): "O coração. Sentir que. Bate. (...) Não deixar que a luz entre e te ocupe. Rastejar debaixo da luz." Etc. Isto é, ele rasteja debaixo da cidade dos outros num esconderijo privado. Esses outros, "Eles", consubstanciam ameaça indefinida, nem por isso menos temida. Podemos identificar situação e discurso, de algum modo, com medos que nos invadem o quotidiano nestes tempos sombrios e isso reduz a estranheza da recepção. Aliás, não será decerto casual a coexistência em salas de Lisboa, a partir de hoje, deste monólogo com o de João Lagarto no Estúdio do D. Maria II, Começar a Acabar, a partir de textos de Samuel Beckett: falas solitárias e disfóricas. E Beckett é uma das grandes referências literárias de Gonçalo M. Tavares; em Debaixo da Cidade, cruza-se na atmosfera criada com outra das suas referências maiores, Kafka.
Elisabete França, in Diário de Notícias.
O Clube irá assistir, amanhã, dia 27, a este espectáculo no CAPa. É estranho, é diferente, é denso. A emoção ao ritmo da respiração. No fim, teremos uma conversa com o Manuel Wiborg e daremos notícias.

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