Tuesday, April 08, 2008

O Olhar da encenadora


Um misto de orgulho, um misto de carinho, uma saudade já anunciada.

Até breve. Somos como as ondas do mar... vão, vêm, mas o carinho que nos une permanece, como o mar

Era uma vez um homem... Era uma vez uma Mulher


Um encontro... Um desencontro

Ricardo e Ana

Arrasto a minha vida como a cauda de um vestido...


Escalar-te lábio a lábio

Escalar-te lábio a lábio,
percorrer-te: eis a cintura,
o lume breve entre as nádegas
e o ventre, o peito, o dorso,
descer aos flancos, enterrar
os olhos na pedra fresca
dos teus olhos,
entregar-me poro a poro
ao furor da tua boca,
esquecer a mão errante
na festa ou na fresta
aberta à doce penetração
das águas duras,
respirar como quem tropeça
no escuro, gritar
às portas da alegria,
da solidão,
porque é terrível
subir assim às hastes da loucura,
do fogo descer à neve,
abandonar-me agora
nas ervas ao orvalho –
a glande leve.

Eugénio de Andrade, Obscuro Domínio

Como brilham lentas as maçãs



Não chegarás nunca a dizer
como brilham lentas a maçãs
os gatos se demoram nos joelhos
sem liberdade crescem as crianças
Esta noite iremos pela tarde
até às dunas
vai chover
talvez a terra fique limpa.
escreverei como as crianças brilham.


Eugénio de Andrade, Limiar dos Pássaros

Nocturno a duas vozes



- Que posso eu fazer
senão beber-te os olhos
enquanto a noite
não cessa de crescer?

- Repara como sou jovem,
como nada em mim
encontrou o seu cume,
como nenhuma ave
poisou ainda nos meus ramos,
e amo-te,
bosque, mar, constelação.

- Não tenhas medo:
nenhum rumor,
mesmo o do teu coração,
anunciará a morte;
a morte
vem sempre doutra maneira,
alheia
aos longos, brancos
corredores da madrugada. (…)




Eugénio de Andrade, Ostinato Rigore

Só o cavalo, só aqueles olhos grandes



Só o cavalo, só aqueles olhos grandes
de criança, aquela
profusão da seda, ma fazem falta.
Não é a voz,
que tanto escutei, escura do rio,
nem a cintura fresca,
a primeira onde pousei a mão,
e conheci o amor;
é esse olhar que de noite em noite vem
da lonjura por algum atalho,
e me rouba o sono,
e não me poupa o coração.


Eugénio de Andrade, Branco no Branco

Escrito no Muro




Naquela primavera, entre lúcida e ácida,
tínhamos na noite o rio onde mergulhávamos
inteiros,
e as árvores que alguns de nós,
com amorosa paciência,
pintavam nas paredes,
iam-se enchendo de pássaros.


Eugénio de Andrade, Matéria Solar

O Corpo aprende devagar



O corpo aprende devagar
a conhecer a terra.
Com as ervas.
A noite perdeu os seus navios,
o homem o seu rosto,
o sol a razão.
Com as ervas.
A conhecer a terra.
Rente ao chão.


Eugénio de Andrade, Matéria Solar

Também tu...


Também tu suspiras

Por águas que lavem o ar

Suspiras e ardes

Felizes os anjos

Que contentes

Ouvem-te cantar



Eugénio de Andrade

Malmequer, bem me quer


É urgente o amor,
É urgente um barco no mar
É urgente destruir certas palavras,
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos,
muitas espadas.
É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.
Cai o silêncio nos ombros e a luz
impura até doer.
É urgente o amor, é urgente
Permanecer.

Eugénio de Andrade, As Palavras Interditas

Saturday, April 05, 2008

Estreámos!


Parabéns Tapetinhos por mais esta etapa.

Aos poucos vamos caminhando no sentido do crescimento por dentro.

O processo foi lento. O resultado foram 20 amigos para a vida.

Até breve amigos!

Sunday, March 30, 2008

A bailarina da sombra

Agora é de noite
E a bailarina
Que não vive nem morre
Nunca esteve nua.
Era uma figura do sonho, uma recordação.
O seu corpo era uma nuvem
Dessas que ficam esquecidas depois da tempestade.
Agora ficará à deriva
Como uma vela que se acende dentro da escuridão.
E acende-se dentro do mais escuro rochedo
Para dele fazer um coração.
É por isso que a bailarina entra no labirinto e sai
Porque ao dançar
Acende uma luz
Que ilumina a escuridão.

Thursday, March 27, 2008

O grito que envolve o espírito




Agora já não preciso de gritar, porque o meu grito, mesmo calado, envolve o nosso espírito, que tarda em unir-se para sempre.

De quantas vezes dissemos "eu amo-te"?




Eu dizia que te amava de cada vez que via as gaivotas a pousarem junto ao rio. De cada vez que o vento assobiava nas árvores e me gritava o teu nome. Eu grita-lhe o meu amor por ti. Gritava o meu amor a cada flor que se me abria, para que o seu pólen, liberto, te levasse as minhas palavras.

As saudades do meu corpo


Tenho saudades de sentir o meu corpo, de quando ele se abria às tuas carícias que me tocavam com a delicadeza de uma pétala

A sensação de libertar os cabelos




- Sim, há muita coisa de que me lembro, quando penso naquilo que vivi nesse plano. Lembro-me da forma como o vento acariciava os meus cabelos, e da sensação boa que era desprendê-los de todos aqueles ganchos que tinha de colocar, quando dançava.

Pedro lembrando Inês

Em que pensar, agora, senão em ti? Tu, que me esvaziaste de coisas incertas, e trouxeste a manhã da minha noite. É verdade que te podia dizer “Como é mais fácil deixar que as coisas não mudem, sermos o que sempre fomos, mudarmos apenas dentro de nós próprios? Mas ensinaste-mea sermos dois; e a ser contigo aquilo que sou,até sermos um apenas no amor que nos une,contra a solidão que nos divide. Mas é isto o amor ver-te mesmo quando te não vejo, ouvir a tua voz que abre as fontes de todos os rios, mesmo ele que mal corria quando por ele passámos,subindo a margem em que descobri o sentidode irmos contra o tempo, para ganhar o tempo que o tempo nos rouba. Como gosto, meu amor,de chegar antes de ti para te ver chegar: coma surpresa dos teus cabelos, e o teu rosto de água fresca que eu bebo, com esta sede que não passa. Tu: a primavera luminosa da minha expectativa,a mais certa certeza de que gosto de ti, como gostas de mim, até ao fim do mundo que me deste.


Nuno Júdice

Corpo de Cristal


Bailarina
Lançada no espaço
Não morrerá
Continuará assim,
Vagueando
Nem na vida, nem na morte.
Bailarina
Corpo de cristal
Foi quebrada
Estilhaçada
E dos cacos dos seus olhos
Surgiam lágrimas
Puras como violetas
Possuindo a sua alma
Transbordando
De néctar purpúreo .
E ela dançava bebendo as violetas
Embriagando-se na sua paixão.
Dançava
À beira de vulcões
Acesos no seu corpo
E rodopiava
Sobre nenúfares
Pousados
Nos lagos
Dos seus olhos.
Agora é de noite
E a bailarina
Que não vive nem morre
Nunca esteve nua.
Era uma figura do sonho, uma recordação.
O seu corpo era uma nuvem
Dessas que ficam esquecidas depois da tempestade.
Agora ficará à deriva
Como um candeeiro que se acende na escuridão
E acender-se dentro do mais escuro
Para dele fazer um coração.
É por isso que a bailarina entra no labirinto e sai
Porque ao dançar
Acende uma luz
Que ilumina a escuridão.